No que se refere às violências contra mulheres, em abril desse ano de 2020, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), foi alterada para prever novas medidas que podem ser impostas aos agressores assim que constatada a prática de violência doméstica e familiar contra a mulher. Ou seja, agora também é medida protetiva de urgência: "o comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação e; acompanhamento psicossocial do agressor, através de atendimento individual e/ou grupos de apoio" (Art.22, incisos VI e VII, LPM)
Dessa forma, todos os entes federativos devem criar e promover centros de educação e reabilitação de agressores.
Nesse sentido, o TJ/RJ, através do
Observatório Judicial da Violência contra a Mulher [2] desenvolveu o projeto "Escola dos Homens": "Criada em 2009, a Escola de Homens já acolheu mais de 1.700 alunos e registra reincidência menor que 8% desde que foi estabelecida.
De acordo com o titular do Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Nova Iguaçu-Mesquita (RJ), o juiz Octávio Chagas de Araújo Teixeira, o objetivo é coibir o número de reincidência e estimular o rompimento do comportamento agressivo com o auxílio de uma equipe técnica composta por psicólogos e assistentes sociais:
"A metodologia é baseada em reflexões sobre assuntos que funcionam como gatilhos para a violência. Abordamos sobre a ausência de empatia, falta de diálogo, sentimentos como a raiva, desnaturalização da violência doméstica, desconstrução da masculinidade tóxica, por exemplo. Além disso, falamos sobre conceito de gênero, que desencadeia outros temas como orientação sexual, identidade de gênero e homofobia, e a violência de gênero, tópico no qual trabalhamos a inversão de papéis sociais" [3]
Inciativas semelhantes vêm acontecendo em diversos outros estados, seja pelo poder público judiciário, como Ministério Público do Estado de São Paulo, com o projeto "Tempo de Despertar" da promotora de Justiça Gabriela Mansur em Taboão da Serra/SP
[4], que aponta para uma redução de 97 a 100% no número de reincidências das violências, após a participação dos agressores no projeto; Seja também por iniciativas de ONGS como o Coletivo M.A.S.S.A (Coletivo de Masculinidade Autêntica, Sensível, Saudável e Acolhedora) em Mato Grosso do Sul
[5] e a ONG "Papo de Homem" com o Documentário " O Silêncio do Homens", disponível gratuitamente no YouTube
[6] Quando pensamos em masculinidades, a professora, Drª Valeska Zanello, alerta acerca da importância de que
[7]
"É necessário pensar na construção da masculinidade como um fenômeno histórico-cultural"
Ela também aponta que as masculinidades estão diretamente ligadas às formas de virilidades, que têm como pilares a misoginia, o processo de embrutecimento por meio da competição entre si e outros homens e da objetificação sexual com relação às mulheres. Além do "silêncio cumplice" que coaduna com a construção do sexismo e manutenção desses pilares nas relações de homossociabilidade e homoafetividade.
Nesse contexto, todos os projetos que tratam a questão das masculinidades relacionada à violência, apresentam dados esperançosos, visto que
Após serem inseridos em um processo de reflexão e autoconhecimento, os agressores adquirem consciência sobre responsabilização, igualdade, respeito à diversidade e cidadania. O que possibilita a perspectiva de real transformação e redução significativa da violência de gênero.
Por isso, é importante pensarmos sobre masculinidades para além dos agressores, mas também como política afirmativa de desconstrução do conceito atual do que é ser homem na nossa sociedade.
Fernanda Rocha de Moraes
Advogada
Graduada pela Universidade Mackenzie
Especialista em Direitos Difusos e Coletivos pela Escola Superior do Ministério Público de São Paulo
Presidente da Comissão da Mulher na 250ª Subseção da OAB de Vargem Grande Paulista
(Gestão 2019-2021)
Idealizadora do Projeto Fala Doutora desenvolvido para descomplicar Direitos, como forma de acesso à justiça e à informação como Direito de todas/os/es. [8]
REFERÊNCIAS:
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