Sistemas de Opressão: o que são e como interferem em nossas vidas

 

Os sistemas de opressão existentes em nossa sociedade como o racismo, sexismo, homofobia, transfobia, xenofobia e desigualdades sociais, ainda estão permeados por cargas de preconceitos historicamente impostos pela naturalização das violências e desigualdades, especialmente a de direitos. Nas palavras da filósofa, doutora Sueli Carneiro, perdura uma questão essencial acerca dos direitos humanos: a prevalência da percepção de que certos humanos são mais ou menos humanos do que outros”. 

E dentro do contexto pandêmico em que a humanidade atravessa, a caixa de pandora se abre trazendo cada vez mais à tona a discussão desses temas imprescindíveis para a construção de redes, pontes de diálogos, pensamentos, formas transgressoras e libertárias de educação, bem como políticas públicas voltadas à promoção a igualdades de oportunidades e de direitos para pessoas que são interssecionalmente atingidas por tais sistemas. 

É necessária e urgente reflexão acerca de uma nova forma de se pensar a humanidade.

As questões atuais desses sistemas de opressão requerem a contextualização histórica do legado de existência opressora e violenta que violou identidades, culturas, comunidades, “pessoas coletivas”, etc. Ailton Krenak, alerta para a necessidade de um olhar crítico a essa idéia “plasmada de humanidade homogenia”, sociedade “civilizada”, e respeitar as diferentes cosmovisões e culturas existentes como forma de resistência e sobrevivência.

O genocídio aos povos indígenas, ao povo negro trazido de África, às mulheres em especial negras e trans, são feridas históricas que seguem latentes no sistema jurídico, na estrutura educacional, no contexto político e social brasileiro. A necropolítica impera, “o lote de sofrimento que pouco a pouco se estende para além dos negros, abarca desempregados, descartáveis, favelados, imigrantes. É a política do extermínio.” (MBEMBE, Achille).

Sueli Carneiro alerta que “questionam a simplificação de que o problema do Brasil é social, e não racial.”, quando em verdade, o mito da democracia racial e o racismo estrutural criam um verdadeiro abismo onde a população negra não tem acesso a direitos fundamentais básicos e a espaços de poder, tampouco ações afirmativas de políticas públicas voltadas promoção de igualdade de oportunidades, redução do desemprego dos afro-brasileiros, redução de evasão escolar de crianças e adolescentes negros, ampliação do acesso ao ensino superior às pessoas negras, campanhas de valorização da população negra e combate ao racismo para muito além das datas comemorativas de luta, promoção profissional de afrodescendentes, a concessão e a regulamentação de títulos de propriedades das comunidades remanescentes de quilombos (CARNEIRO, Sueli). Tal qual a demarcação de terras indígenas e o combate a todas as formas de discriminação e violência, enfrentadas pelas mulheres, em especial, mulheres negras e trans.

"Os sistemas de opressão são estruturantes e estruturadores das desigualdades" que existem em diversas sociedades tal qual a brasileira. (Cláudia Patrícia de Luna)

Nesse sentido, bell hooks, sustentada na pedagocia do professor Paulo Freire, apresenta um novo paradigma de se pensar a educação como elemento de libertação, transformação e transgressão desse “cis-tema” patriarcal, hétero-branco-normativo, hegemônico e opressor. Acerca das teorias feministas, a ótica de bell hooks seria de que tais teorias devem chegar ao acesso de públicos diversos, para que haja maior adesão ao feminismo. Do mesmo modo, defende a solidariedade feminista entre as mulheres, inclusive no âmbito acadêmico. Bem como destaca a importância da construção de uma comunidade pedagógica, através de diálogos solidários que ousem transgredir as barreiras opressoras do sistema de ensino, através de uma nova prática de liberdade educacional, solidária, engajada, transformadora dentro das práticas e conteúdos nas salas de aula.

 “A sala de aula com todas as suas limitações, continua sendo um ambiente de possibilidades. Nesse campo de possibilidades temos a oportunidade de trabalhar pela liberdade, de exigir de nós e dos nossos camaradas uma abertura da mente e do coração que nos permita encarar a realidade ao mesmo tempo em que, coletivamente imaginamos esquemas para cruzar fronteiras, para transgredir. Isso é a educação como prática da liberdade.”

Tais mudanças requerem de todas, todes e todos, a consciência de que tal sistema de opressão caminha para o fim da humanidade, seja como espécie, seja como sujeitos de direitos, de existência, de ser quem se é. Resistir é fundamental. 

Nas palavras de Krenak “Quando você se sentir que o céu está ficando muito baixo, é só empurrá-lo e respirar. (...) A gente resistiu expandindo a nossa subjetividade.(...)Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte, não o prospectivo, mas o existencial. É enriquecer as nossas subjetividades, (...) manter nossa visões, nossas poéticas sobre a existência.”.



Por Fernanda Rocha

Mestra em Humanidades e Direitos pela USP
Pesquisadora em Direitos Humanos, História Pública, Estudos e Políticas Públicas de Gênero
Pós-graduada em Direitos Difusos e Coletivos ESMP/SP
Especialista em advocacia para mulheres com perspectiva de gênero
Presidente da Comissão das Mulheres da OAB Subseção de Vargem Grande Paulista/SP

Bibliografia:

CARNEIRO, Sueli. Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro Edições, 2011.

hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Cia das Letras, 2019.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 Edições, 2018.

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