O QUE A BRANQUITUDE NÃO SABE OU/E FINGE NÃO SABER SOBRE O RACISMO NO BRASIL?

 


"Cumé que a gente fica?"
(Lélia Gonzalez)

Em seu artigo "Racismo e Sexismo na Cultura Brasileira", de 1984, Lélia Gonzalez apresenta as seguintes perguntas: "O que foi que ocorreu para que o mito da democracia racial [no Brasil] tenha tido tanta aceitação e divulgação? Quais foram os processos que teriam determinado sua construção? Que é que ele oculta, para além do que mostra? Como a mulher negra é situada no seu discurso?” Como você responderia essas questões hoje?

Pensar sobre o porquê da aceitação do mito da democracia racial no Brasil teve tanta aceitação e divulgação é refletir sobre o contexto histórico brasileiro que invisibilizou o racismo e fez com que a população negra e toda sociedade brasileira passasse por um processo de branqueamento e desvalorização da cultura negra através da negação da história do povo negro, da identidade existencial como ser humano, da associação à raça/etnia à precariedade social e ao status de ausência de poder.

A construção identitária de ser negro foi ligada à condição de escravizado, carregando o significado de subservientes como forma de retirar o direito de pertencimento a uma estrutura do poder da sociedade. Que inclusive por força de lei e carga simbólica da constituição de 1924, coloca a negritude em um lugar de não-lugar, do não existência enquanto sujeitos de direitos.

Enquanto o Brasil semeia o mito da democracia racial por meio de uma suposta cordialidade entre os povos e democracia social, o que existe de fato é uma invisibilização do racismo, negando que o racismo existe, mas reafirmando o racismo nas práticas quotidianas, como por exemplos nas oportunidades de empregos, na exclusão de oportunidade e igualdade de direitos pela característica fenotípica da negritude, Pelo silenciamento e apagamento da cultura africana, pelo impedimento ao acesso à educação, pela comunicação midiática racista, por segregar espaços de trabalhos, em especial a mulheres negras, as condicionando ao trabalho doméstico ou qualquer outro de exploração;

Lélia Gonzalez aponta ainda a questão da naturalização do racismo, com a ideia de miserabilidade da condição humana do negro, à normalização da ideia de “irresponsabilidade, incapacidade intelectual, criancice”, do discurso culturalmente e planejadamente incorporado de que o preto é bandido, vagabundo, preguiçoso, por isso malandro e deve ser perseguido pela polícia (capatazes do Estado), afinal: Nem sempre polícia aqui respeita alguém. Em casa invade, a soco ou fala baixo ou você sabe maldade, uma mentira deles, dez verdades(“Um Bom Lugar de Sabotage - Ouça no Spotify )

Como explica Lélia Gonzalez, a ideia amplamente difundida de que 

“Menor negro só pode ser pivete ou trombadinha, pois filho de peixe, peixinho é. Mulher negra, naturalmente, é cozinheira, faxineira, servente, trocadora de ônibus ou prostituta. Basta a gente ler jornal, ouvir rádio e ver televisão. Eles não querem nada. Portanto têm mais é que ser favelados”

Esse mecanismo de "filtragem racial" cria estigmas e estereótipos ao povo negro que coloca as vidas das pessoas negras como alvo. Trata-se de uma construção social histórica, onde a força pública em nome da segurança, segrega espaços públicos, como por exemplo a Lei da Vadiagem. Naturaliza-se ainda o discurso da meritocracia, como se as oportunidades fossem iguais entre brancos e negros, reforçando o racismo velado e a prática institucional racial.

Às mulheres ainda são reservadas empregos precários, domésticos, à estigma da sexualidade da mulher negra como símbolo da objetificação sexual do corpo da mulher negra como forma de violência, desumanização e discriminação de gênero e racial. 

Em “Gênero, Raça e Ascensão Social”, Sueli Carneiro explica que

“O estupro colonial da mulher negra pelo homem branco no passado e a miscigenação daí decorrente, criaram as bases para a fundação do mito da cordialidade e democracia racial brasileira. (...) atrás do rosto escuro de cada uma de nós, estão mães, avós, irmãs, escravas, mucamas de cama mesa e banho. Testemunhas de uma História de derrotas e fracassos da qual somos todos herdeiros e que nenhuma estória de mobilidade social individual pode apagar."

Nesse atual contexto, é imprescindível a construção de feminismos, políticas públicas e formações que tenham um olhar voltado para as interseccionalidades de raça, classe, gênero. Como bem explicado pela advogada Dra. Cláudia Patrícia Luna na live sobre o tema RACISMO E LEGISLAÇÃO DO BRASIL (Click aqui), esse olhar e tratamento interssecional deve existir "para que os movimentos feministas, não partam da ideia de tratamento de uma mulher universal, até porque não há uma mulher universal, mas mulheres, negras, brancas, orientais, migrantes, lésbicas, transexuais, travestis, infinitas identidades que perpassam e resistem pelas diversas formas de opressão". E que devem ser combatidas pelos entes públicos e privados como os movimentos sociais, sociedade civil organizada (ONGS, OABs, ONU), Ministérios Públicos, Magistraturas, Secretarias Municipais, etc.), e principalmente pela urgente necessidade de restauração e implementações de políticas públicas voltadas ao enfrentamento de toda e qualquer forma de violência e discriminação racial. 

Por Fernanda Rocha
Advogada, especialista em advocacia para Mulheres
Mestranda em Humanidades e Direitos pela USP
Presidente da Comissão da OAB Mulher
Subseção de Vargem Grande Paulista/SP

Referências Bibliográficas:

CARNEIRO, Sueli. Gênero, Raça e Ascensão Social no Brasil. Revista Estudos Feministas. Dossiê v. 3 n. 2 (1995) Disponível em https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/16472

GONZALEZ, Lélia. Racismo e sexismo na cultura brasileira. In: Revista Ciências Sociais Hoje, Anpocs, 1984, p. 223-244. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4584956/mod_resource/content/1/06%20-%20GONZALES%2C%20Lélia%20-%20Racismo_e_Sexismo_na_Cultura_Brasileira%20%281%29.pdf

Leitura complementar: 
CARNEIRO, Sueli.  Racismo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro Edições, 2011.

hooks, bell. EU NAO SOU UMA MULHER?: MULHERES NEGRAS E FEMINISMO - Ed. Rosa dos Tempos. 1ªED, 2019.

_________ Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. 2ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 2017.

KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Tradução de Jess Oliveira. Rio de Janeiro: Editora Cobogó, 2019. 244p https://www.cobogo.com.br/produto/memorias-da-plantacao-episodios-de-racismo-cotidiano-645?language=pt-BR

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Link da Live do projeto Fala Doutora com a Dra Claudia Patrícia Luna:

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